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Localização Noroeste de Roraima, norte do Amazonas e sul da Venezuela População Brasil - 11.611 Venezuela - 12.000 Línguas Yanomae, Yanõmam População e comunidades atendidas pela URIHI 5.364 Yanomami, distribuídos em 96 comunidades |
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Os Yanomami e sua terra
Os Yanomami formam uma sociedade de caçadores-agricultores
da floresta tropical do Norte da Amazônia cujo contato com a sociedade
nacional é, na maior parte do seu território, relativamente recente. Seu
território cobre, aproximadamente, 192.000 km², situados em ambos os lados
da fronteira Brasil-Venezuela na região do interflúvio Orinoco - Amazonas
(afluentes da margem direita do rio Branco e esquerda do rio Negro).
Constituem um conjunto cultural e lingüístico composto de, pelo menos,
quatro subgrupos adjacentes que falam línguas da mesma família (Yanomae,
Yanõmami, Sanima e Ninam). A população total dos Yanomami, no Brasil e
na Venezuela, é hoje estimada em cerca de 26.000 pessoas. |
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O nome "Yanomami" O etnônimo "Yanomami" foi produzido pelos antropólogos a partir da palavra yanõmami que, na expressão yanõmami thëpë, significa "seres humanos". Essa expressão se opõe às categorias yaro (animais de caça) e yai (seres invisíveis ou sem nome), mas também a napë (inimigo, estrangeiro, "branco"). Os Yanomami remetem sua origem à copulação do demiurgo Omama com a filha do monstro aquático Tëpërësiki, dono das plantas cultivadas. A Omama é atribuída a origem das regras da sociedade e da cultura yanomami atual, bem como a criação dos espíritos auxiliares dos pajés: os xapiripë (ou hekurapë). O filho de Omama foi o primeiro xamã. O irmão ciumento e malvado de Omama, Yoasi, é a origem da morte e dos males do mundo. |
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Os brancos: napëpë
Uma narrativa mítica ensina que os estrangeiros devem
também sua existência aos poderes demiúrgicos de Omama. Conta-se que foram
criados a partir da espuma do sangue de um grupo de ancestrais Yanomami
levado por uma enchente após a quebra de um resguardo menstrual e devorado
por jacarés e ariranhas. A língua "emaranhada" dos forasteiros lhes foi
transmitida pelo zumbido de Remori, o antepassado mítico do marimbondo
comum nas praias dos grandes rios. Os antigos Yanomami
Por não possuírem afinidade genética, antropométrica
ou lingüística com os seus vizinhos atuais, como os Ye'kuana (de língua karib),
geneticistas e lingüistas que os estudaram deduziram que os Yanomami seriam
descendentes de um grupo indígena que permaneceu relativamente isolado desde
uma época remota. Uma vez estabelecido enquanto conjunto lingüístico, os
antigos Yanomami teriam ocupado a área das cabeceiras do Orinoco e Parima
há um milênio, e ali iniciado o seu processo de diferenciação interna (há 700 anos)
para acabar desenvolvendo suas línguas atuais. Primeiros contatos Até o fim do século XIX, portanto, os Yanomami mantinham contato apenas com outros grupos indígenas vizinhos. No Brasil, os primeiros encontros diretos de grupos yanomami com representantes da fronteira extrativista local (balateiros, piaçabeiros, caçadores), bem como com soldados da Comissão de Limites e funcionários do SPI ou viajantes estrangeiros, ocorreram nas décadas de 1910 a 1940. Entre os anos 1940 e meados dos anos 1960, a abertura de alguns postos do SPI e, sobretudo, de várias missões católicas e evangélicas, estabeleceu os primeiros pontos de contato permanente no seu território. Estes postos constituíram uma rede de pólos de sedentarização, fonte regular de objetos manufaturados e de alguma assistência sanitária, mas também, muitas vezes, origem de graves surtos epidêmicos (sarampo, gripe e coqueluche). O tempo do "desenvolvimento" Nas décadas de 1970 e 1980, os projetos de desenvolvimento do Estado começaram a submeter os Yanomami a formas de contato maciço com a fronteira econômica regional em expansão, principalmente no oeste de Roraima: estradas, projetos de colonização, fazendas, serrarias, canteiros de obras e primeiros garimpos. Esses contatos provocaram um choque epidemiológico de grande magnitude, causando altas perdas demográficas, uma degradação sanitária generalizada e, em algumas áreas, graves fenômenos de desestruturação social. A estrada Perimetral Norte As duas principais formas de contato inicialmente conhecidas pelos Yanomami - primeiro, com a fronteira extrativista e, depois, com a fronteira missionária - coexistiram até o início dos anos 1970 como uma associação dominante no seu território. Entretanto, os anos 1970 foram marcados (especialmente em Roraima) pela implantação de projetos de desenvolvimento no âmbito do "Plano de Integração Nacional" lançado pelos governos militares da época. Tratava-se, essencialmente, da abertura de um trecho da estrada Perimetral Norte (1973-76) e de programas de colonização pública (1978-79) que invadiram o sudeste das terras yanomami. Nesse mesmo período, o projeto de levantamento dos recursos amazônicos RADAM (1975) detectou a existência de importantes jazidas minerais na região. A publicidade dada ao potencial mineral do território yanomami desencadeou um movimento progressivo de invasão garimpeira, que acabou agravando-se no final dos anos 1980 e tomou a forma, a partir de 1987, de uma verdadeira corrida do ouro. A corrida do ouro Uma centena de pistas clandestinas de garimpo foi aberta no curso superior dos principais afluentes do Rio Branco entre 1987 e 1990. O número de garimpeiros na área yanomami de Roraima foi, então, estimado em 30 a 40.000, cerca de cinco vezes a população indígena ali residente. Embora a intensidade dessa corrida do ouro tenha diminuído muito a partir do começo dos anos 1990, até hoje núcleos de garimpagem continuam encravados na terra yanomami, de onde seguem espalhando violência e graves problemas sanitários e sociais. Ameaças futuras?
A frente de expansão garimpeira tendeu, no fim da década de 1980, a suplantar
as formas anteriores de contato dos Yanomami com a sociedade envolvente e
até a relegar a segundo plano a fronteira dos projetos de desenvolvimento
surgida nos anos 1970. A casa/aldeia
Os grupos locais yanomami são geralmente constituídos por uma casa plurifamiliar
em forma de cone ou de cone truncado chamado yano ou xapono (Yanomami orientais
e ocidentais), ou por aldeias compostas de casas de tipos retangulares (Yanomami
do norte e nordeste). O espaço social inter-aldeão
Porém, apesar desse ideal autárquico, todos grupos locais mantêm uma rede
de relações de troca matrimonial, cerimonial e econômica com vários grupos
vizinhos, considerados aliados frente aos outros conjuntos multicomunitários
da mesma natureza. Esses conjuntos superpõem-se parcialmente para formar
uma malha sócio-política complexa, que liga a totalidade das casas coletivas
e aldeias yanomami de um lado ao outro do território indígena. O uso dos recursos
O espaço de floresta usado por cada casa-aldeia yanomami pode ser descrito
esquematicamente como uma série de círculos concêntricos. Esses círculos
delimitam áreas de uso de modos e intensidade distintos. Urihi, a terra-floresta A palavra yanomami urihi designa a floresta e seu chão. Significa também território: ipa urihi, "minha terra", pode referir-se à região de nascimento ou à região de moradia atual do enunciador; yanomae thëpë urihipë, "a floresta dos seres humanos", é a mata que Omama deu para os Yanomami viverem de geração em geração; seria, em nossas palavras, "a terra yanomami". Urihi pode ser, também, o nome do mundo: urihi a pree, "a grande terra-floresta". Uma geografia cosmológica
Fonte de recursos, urihi, a terra-floresta, não é, para os Yanomami, um simples
cenário inerte submetido à vontade dos seres humanos. Entidade viva, ela
tem uma imagem essencial (urihinari), um sopro (wixia), bem como um princípio
imaterial de fertilidade (në rope). Os espíritos xapiripë
A iniciação dos pajés é dolorosa e extática. Ao longo dela, inalando por muitos
dias o pó alucinógeno yãkõana (resina ou fragmentos da casca interna da árvore
Virola sp. secados e pulverizados) sob a condução dos mais antigos, aprendem
a "ver/ conhecer" os espíritos xapiripë e a "responder" a seus cantos. O trabalho dos pajés
Uma vez iniciados, os pajés yanomami podem chamar até si os xapiripë, para
que estes atuem como espíritos auxiliares. Esse poder de conhecimento/ visão
e de comunicação com o mundo das "imagens/essencias vitais" (utupë) faz dos
pajés os pilares da sociedade yanomami. Escudo contra os poderes maléficos
oriundos dos humanos e dos não-humanos que ameaçam a vida dos membros de
suas comunidades, eles são também incansáveis negociadores e guerreiros do
invisível, dedicados a domar as entidades e as forças que movem a ordem cosmológica. Ver os espíritos xapiripë Para desenvolver suas sessões, os pajés inalam o pó yãkõana, considerado como a comida dos espíritos. Sob seu efeito, dizem "morrer": entram num estado de transe visionário durante o qual "chamam" a si e "fazem descer" vários espíritos auxiliares, com os quais acabam identificando-se, imitando as coreografias e cantos de cada um em função da sua mobilização na pajelança (denignam-se os pajés como xapiri thëpë, "gente espírito"; o fazer pajelança diz-se xapirimu, "agir enquanto espírito"). Assim, quando "seus olhos morrem", os pajés adquirem uma visão/ poder que, ao contrário da percepção ilusória da "gente comum" (kua përa thëpë), lhes dá acesso à essência dos fenômenos e ao tempo de suas origens, portanto, à capacidade de modificar seu curso. Bruce Albert - Pesquisador do IRD (Paris) |
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