População

1.730 pessoas
    Yanomami - 1.435
    Ye'kuana - 295

Línguas

Yanomami - Sanima
Ye'kuana - Ye'kuana (Karib)

Número de Comunidades

Yanomami - 29
Ye'kuana - 02


Cercada de serras por todos os lados, a bacia do rio Auaris fica incrustada na Venezuela. É nesta estreita faixa de terras que vivem os sanima, o grupo mais setentrional dos Yanomami. A assistência tem seu posto nas coordenadas N 4º 00' 10", W 64° 29' 21", próximo ao rio Auaris onde também se encontram instalações do Exército Brasileiro e de uma missão da Missão Evangélica da Amazônia (MEVA). Trata-se de uma região montanhosa, com bacias sedimentares sobre os blocos rochosos, cobertos de vegetação florestal, tanto nas encostas quanto nas bacias sedimentares.

Além dos Sanima, divididos em 29 comunidades, incluindo as afastadas, da região do Sigaima e Xicói, habitam na região de Auaris duas comunidades Ye'kuana, etnia de língua Karib, com hábitos culturais bastante diversos dos Yanomami.
Ambas etnias praticam agricultura, sendo as roças dos Ye'kuana maiores, em extensão. As roças Sanima apresentam uma diversificação interessante, geralmente em encostas, com a organização espacial por espécies, sendo os abacaxis plantados em situação de topos, as mandiocas (vários tipos) nas encostas, e as bananeiras na parte baixa. Além destas, diversas outras são encontradas, como pimentas, soká (solanácea semelhante a um tomate). As roças antigas possuem ainda diversos recursos importantes na dieta, como os cogumelos, frutas e a pupunha, além das madeiras, já secas, muito valorizadas no caso dos Ye'kuana. Também utilizam-se da caça mas a sedentarização tem feito com que tenham que se deslocar cada vez mais longe para tal. Devido provavelmente às cachoeiras, não há peixes grandes em Auaris.
Há grande intercâmbio entre os Yanomami desta região com os que vivem na Venezuela, onde a assistência quase inexiste; isto acarreta quase sempre o surgimento de epidemias em Auaris devido à chegada freqüente de grupos inteiros com malária e/ou gripe, fato que levou a URIHI a abrir sub-pólos para a assistência permanente nos maiores aglomerados de comunidades desta região, tal como Saula, Momoipu, Hokolasimupu, entre outros.

A partir do final da década de 80, a população de Auaris sofreu profundo impacto em sua situação epidemiológica devido, principalmente, à alta incidência de malária introduzida em larga escala em toda a área Yanomami em conseqüência da corrida do ouro de Roraima. Outra doença transmitida aos Yanomami nesta época foi a tuberculose. Esta doença alcançou uma incidência 40 vezes superior ao verificado na população brasileira em geral no ano de 1999. A alta incidência de doenças infecto-parasitárias prejudicou profundamente as atividades de subsistência desta população levando a uma grande carência alimentar e altos índices de desnutrição, especialmente na população infantil. Esse quadro sanitário foi responsável por uma altíssima mortalidade geral e infantil dos yanomami de Auaris na década passada.
Com  este  histórico  de   problemas   de

saúde Auaris ainda persiste como o maior desafio da assistência à saúde pelas equipes da URIHI., de melhorar a condição geral de saúde e prevenir possíveis epidemias. No primeiro ano de assistência permanente às comunidades a incidência de malária foi alta, diminuindo paulatinamente ao longo ano, tendo sido em dezembro/00 10 vezes menor do que em no mês de janeiro desse mesmo ano.
No passado funcionou uma escola da MEVA para os Sanima. Em meados do ano 2000, a URIHI implantou 04 escolas nesta região, que conta com 01 professor e 04 yanomami monitores de ensino. Atualmente existem 20 alfabetizados e 11 yanomami já se formaram como microscopistas para o diagnóstico de malária em suas comunidades. Aproximadamente 10 Sanima falam a língua portuguesa. Deverá ser iniciada a formação de Agentes de Saúde em agosto de 2001. No primeiro semestre de 2002 a URIHI pretende ampliar o número de escolas e contratar mais um professor para Auaris.

Os Ye'kuana

Povo de língua Karib, no Brasil os Ye'kuana também são conhecidos como Maiongong. No Brasil eles contam com três comunidades, duas (Auaris e Pedra Branca) na região de Auaris, com 295 pessoas e outra em Waikas (rio Uraricoera); no total a população no Brasil é de cerca 340 pessoas. A maioria desta etnia se encontra em território venezuelano, aonde sua população chega a cerca de 4.800 pessoas. A mesma situação de vizinhança com os Sanima registrada em Auaris também é encontrada em varias regiões da Venezuela. Além de serem tradicionais navegadores, com uma apurada técnica de construção de embarcações, os Ye'kuana apresentam também um grande conhecimento geográfico-territorial. Diversos artefatos relacionados à cultura material da mandioca, especialmente os ralos, são apreciados por outros povos não Y'ekuana.
No Brasil não utilizam mais suas casas redondas comunais, mas diversas casas retangulares em geral compostas por um casal, suas filhas, genros e netos. O espaço central de reuniões e decisões dos homens mais velhos, chefes e responsáveis por trabalhos coletivos (novos roçados, casas, etc.) são realizados em uma casa construída para ser o espaço de reuniões, festas e cerimônias coletivas. As espécies cultivadas não são diferentes dos seus vizinhos sanima (diferentes tipos de mandioca, pimenta, abóbora, inhame, batata doce, abacaxi, diferentes tipos de bananas, sokua (espécie de tomate). Há porém um grande cultivo de plantas medicinais e mágicas que não sabemos até que ponto seja compartilhado pelos dois grupos. Além de regras de tabus alimentares existe uma classificação de animais comestíveis diferenciada entre os Ye'kuana e os Sanima. Outro aspecto bastante diferenciado entre as duas etnias, é os seus ritos funerários. Para os Ye'kuana, a cremação dos mortos é uma exceção, como regra geral seus mortos são enterrados e há um grande cuidado para não se tocar no corpo sem vida. Em geral, os serviços funerários são realizados pelos Sanima e aqueles que por ventura tocarem no corpo passam por uma série de restrições sociais e alimentares.
O contato com o externo não é novo para esta etnia. A prática das viagens em canoas até a capital do estado, ou mais recentemente de barco a motor, ainda é feita pelo grupo de Waikas. Porém, o contato com Boa Vista intensificou-se nos anos 80 e 90. Em parte, isto foi facilitado pelo aumento dos números de vôos para suas regiões (militares, Funai, Funasa, Meva), em parte, devido aos novos recursos financeiros adquiridos através dos novos trabalhos remunerados na área de saúde e educação, e ainda no auge do garimpo, através da extração de ouro. Foi com estes recursos que o grupo comprou nos anos 80 uma casa nos arredores do centro de Boa Vista que passou a ser usada pelos seus membros como ponto de apoio nas passagens pela capital.
Hoje mais de vinte estudantes estão concluindo o primeiro e segundo grau em escolas públicas em Boa Vista, esta experiência com o ensino formal proporcionou aos Ye'kuana o ingresso no mercado de trabalho em área indígena junto as Ongs, Funasa e Secretaria Estadual de Educação. Em Auaris, eles contam hoje com uma escola estadual, com mais de 100 alunos, ela oferece o curso ginasial até a sexta-série, e aspira chegar até a oitava-série nos próximos anos, além do ensino supletivo. Vários alunos de Waikás estão em Auaris para continuarem seus estudos evitando assim uma estadia ainda mais prolongada em Boa Vista. Existe uma importante troca de correspondências entre os Ye'kuana em língua materna, de certa forma a escrita combinou bem com as familiarizadas "viagens" ou se quisermos, com a mobilidade deste povo. A maioria dos homens adultos falam a língua portuguesa e muitos falam também a língua sanima, atuando como intérpretes das equipes de saúde. Atualmente 05 jovens Ye'kuana são contratados pela URIHI como microscopistas.
Apesar da situação relatada, os Ye'kuana continuam fora do cenário político das organizações indígenas no Estado de Roraima. Só recentemente alguns professores participaram de alguns dos encontros promovidos pela OPIR - Organização dos Professores Indígenas de Roraima, e dos encontros do DSEIY-Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami, este segundo não está vinculado diretamente às organizações indígenas, mas constrói uma nova experiência de avaliação e discussão da situação de saúde e de contato com o mundo externo.

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