As escolas de alfabetização da URIHI funcionam atualmente nas regiões de Surucucu, Hakoma, Auaris, Parafuri e Arathaú e são voltadas para atender crianças, adolescentes e adultos Yanomami, residentes nestas regiões, que estejam interessados em participar do processo de alfabetização. A princípio, de janeiro a outubro de 2001, o projeto abrangerá 8 comunidades, num total de 200 pessoas nas regiões de Surucucu (Pirisi e Roko), Hakoma (Tihisipora e Tihiwana u) e de Auaris (Saula, Auaris, Katimani e Passarão). Num segundo momento, a partir de outubro de 2001, abrangerá também, regiões de Aratha-u (Arathau), Parafuri (Komomasipi u e Xaruna) e ampliação das escolas em Surucucu (sub-região Okomo u).

Objetivos

–  Alfabetizar em língua materna, dentro de um período estimado de 24 meses, pelo menos a metade da
    população alvo (jovens e crianças em idade de freqüentar a escola e adultos que estiverem
    interessados) de cada uma das comunidades abrangidas pelo programa;
–  Proporcionar aos yanomami que freqüentam as escolas o aprendizado da matemática elementar
    (sistema decimal) e, nos primeiros dois anos, adição e subtração;
–  Possibilitar às comunidades abrangidas pelo programa a apropriação da escrita e a familiarização
    com a instituição escola.
–  Produção do material didático necessário ao processo de alfabetização e ao ensino da matemática.

Metodologia

Pretendemos com essa proposta criar espaços educacionais nas comunidades alvo onde os Yanomami possam se apropriar de outras formas de conhecimento que lhes permitam se relacionar melhor com a sociedade envolvente, além de garantir a reprodução dos conhecimentos tradicionais. Reportando-nos à história da educação escolar no Brasil, vigente nas diversas etnias, nos deparamos em alguns casos com uma política indigenista direcionada para a integração do índio no sistema nacional, ou seja, de caráter "civilizatório". Embora o MEC - Ministério da Educação e do Desporto, preveja que as escolas indígenas levem cada povo a conquistar sua autonomia sócio-econômico-cultural, a recuperar sua memória histórica, a reafirmar sua identidade étnica e a valorizar sua própria língua e etno-conhecimentos, muitas vezes nos esbarramos  com   uma   única   forma   de

fazer escola: o modelo integracionista. Algumas das propostas de educação escolar indígena não conseguem conceber outras vias de aquisição do conhecimento e não se abrem para novas possibilidades pedagógicas. Sempre se baseiam no mesmo modelo exaurido de escola, burocrático e excludente, que ignora a existência de estilos cognitivos diferentes e que grupos populares e etnias possuem formas próprias de lidar com o conhecimento.
Ao elaborarmos uma proposta de educação que envolva conhecimento científico e sistematizado às comunidades Yanomami, levantamos as seguintes questões, já feitas por Paulo Freire (1991:4) em uma discussão sobre etno-ciência e reflexão pedagógica: "em termos éticos que direito temos nós de pôr em dúvida os níveis de certeza do conhecimento mágico? Em nome do quê nós podemos intervir na estrutura de poder/conhecimento interna às etnias que trabalhamos? Como refletir o redimensionamento que ocorre em tais etnias a partir de outro dimensionamento, no campo do conhecimento?". Acreditamos que, se vamos trabalhar com outras formas de conhecimento, já estaremos intervindo no modo de ser Yanomami e temos que ter consciência disso.
Mas, para que este povo possa superar-se no conhecimento que já têm hoje, eles devem assumir este conhecimento como uma pré-condição para irem mais além, ou seja, onde este conhecimento será aplicado? Para isso, esse povo deve saber em uso de quê ele vai colocar o conhecimento com que se superou. Podemos refletir acerca disso, sobre o processo de alfabetização entre os Yanomami que são de uma  cultura  oral.  Como

aplicarão o uso da escrita? Para quê se formarem como Agente Yanomami de Saúde se já possuem o seu próprio modo de lidar e conhecer as doenças? Procurando respostas a estas questões, vemos que, atualmente, a alfabetização é uma experiência escolar que lhes permite adquirir conhecimentos a respeito do mundo e dos riscos que os cercam, podendo se tornar um instrumento útil para a preservação de sua cultura, na defesa de sua sociedade, ao interagirem com a sociedade nacional.
Quanto à formação de Microscopistas e Agentes Indígenas de Saúde, sabemos que entre as doenças de maior incidência na área yanomami está a malária, que é também responsável pelo maior número de mortes por causa conhecida. A constante presença de pessoas não Yanomami, sobretudo garimpeiros em seu território têm introduzido sistematicamente as infecções respiratórias agudas (IRA), sendo outro grave problema de saúde as diarréias e a desidratação.

Assim, temos convicção de que os Yanomami só gozarão plenamente de seu direito à saúde quando participarem, não somente como pacientes, mas como agentes e sujeitos de um programa de saúde que considere todas as especificidades e complexidades da relação interétnica. Neste sentido, o que propomos aqui é trabalharmos seguindo uma filosofia fundamentada em concepções epistemológicas que concebam os Yanomami como possuidores de conhecimento e que podem construir e re-elaborar outros, problematizando sua realidade, com a ajuda de professores Yanomami e não-Yanomami, que respeitarão seus métodos próprios de aprendizagem e aquisição do conhecimento. Pois, acreditamos que, historicamente, os povos indígenas possuem o direito de conhecer as explicações de uma ciência que não é a deles, para que possam optar por manipular variáveis de conhecimento científico, sem que esta opção signifique o abandono dos seus conhecimentos, mas que podem ser reformulados com um outro olhar.